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MAX ROHDE ENTRE ONÇAS E SUCURIS: Um relato do adventismo em Mato Grosso na década de 1920

Carlos Rodrigo Soares¹


Introdução


Este trabalho procura abordar as experiências de um dos sujeitos que colaboraram com o avanço do adventismo em território mato-grossense. Partindo de um breve relato de Max Rohde, um pastor adventista que esteve em Mato Grosso na década de 1920, busco compreender suas palavras dentro do contexto histórico, geográfico e cotidiano vivenciado durante o início dos trabalhos da igreja adventista em Mato Grosso.


No século XX, mais precisamente na década de 1920, durante a chamada Primeira República, a Revista Mensal (hoje com o nome de Revista Adventista) circulava pelo Brasil com várias experiências dos obreiros, pastores e colportores². Esta breve pesquisa resgata uma destas experiências relatada na revista e vivenciada pelo pastor Max Rohde. O relato, no formato de uma notícia, foi veiculado pela Revista Mensal de 1921, aparecendo em duas páginas (9 e 10) e acessados no acervo digital da Revista Adventista do Brasil³.


Não pretendo demarcar quem foi o primeiro adventista em Mato Grosso ou qual teria sido o primeiro ou mais importante lugar e ator nesse processo de crescimento do adventismo no oeste do Brasil. O objetivo é compreender e construir um espaço de experiências de um pastor adventista que trabalhou em Mato Grosso, refletindo sobre as suas dificuldades, caminhos e posições, analisando memórias que possam auxiliar na construção de uma identidade adventista, de uma perspectiva da consciência da “nuvem de testemunhas” que pairam diante dos adventistas do sétimo dia do presente:


Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta. (Bíblia, 2018, Hebreus, 12, 1)


A referência bíblica é fundamental para o adventismo, pois o passado e a finalidade da história perpassam a concepção bíblica, o espírito missionário e cristão. É necessário que cada cristão, cada adventista, corra “a corrida proposta” para esta vida, sem serem impedidos pelo que atrapalha. Ao tratar do passado, na concepção bíblica, evoca que estamos rodeados pelas experiências dos cristãos. Cada sujeito viveu e testemunha de sua fé para edificação do corpo de Cristo, que é a igreja viva no presente. Então, importa que o passado presente seja construído para a edificação da igreja/corpo de Cristo.


Contudo, não pretendo representar ou capturar aqui uma realidade histórica exclusiva, total e única, ou um fato em si, mas construir uma narrativa necessária que circunscreva a interpretação presente do passado para o fortalecimento de uma identidade adventista que abra a compreensão para as experiências dos sujeitos envolvidos no seu desenvolvimento histórico no Brasil, possibilitando também uma abertura que considere diferentes horizontes de expectativas que considerem a providência divina conduzindo o processo histórico para o avanço da obra⁴.


Além do aspecto religioso deste exercício de construção do passado através de uma experiência em particular, concomitantemente busco a compreensão de uma história local, considerando o Mato Grosso do início do século XX. Como podemos representar o Mato Grosso da Primeira República, principalmente da década de 1920? As experiências adventistas em Mato Grosso serão também úteis para a compreensão e construção do contexto geográfico, social e cultural da época.


Portanto, entendo que o passado em si não pode ser reconstruído, não pode ser apresentado de fato ou acessado na íntegra, lançamos mão dessa história entendendo sempre nossos esforços como uma construção narrativa com intenções, cosmovisões e direcionamentos, conscientes ou não. Qual narrativa prevalecerá, entre tantas percepções possíveis sobre um mesmo momento e lugar? Talvez a resposta para esta questão não seja tão relevante, pois entendendo a história na sua multiplicidade exige exatamente essa abertura para várias leituras, várias histórias.


Sendo assim, é necessário abrir diferentes possibilidades para considerarmos os vários sujeitos envolvidos, humanos e não humanos. Por isso, esse trabalho é incompleto, no sentido que faz um breve recorte e parte de uma construção e cosmovisão do surgimento e desenvolvimento do adventismo em Mato Grosso a partir de um breve relato e de fragmentos de um passado presente.


Diante destas questões buscamos conhecer e compreender a trajetória de Max Rohde e do adventismo em Mato Groso na década de 1920. Construir nosso passado como adventista, ainda que buscando histórias relativamente recentes, nos ajudará a construir e fortalecer nosso presente.


O Mato Grosso “ontem e hoje”


Antes de partirmos diretamente para o relato do pastor Max Rohde faremos um comparativo entre as características de Mato Grosso “ontem e hoje”, buscando distinguir brevemente alguns aspectos geográficos, demográficos, sociais e culturais da década de 1920 e de Mato Grosso atualmente. O Brasil e o Mato Grosso naquele contexto do início do século XX foi diferente daquele que podemos encontrar hoje.


O período da Primeira República, mesmo nos anos 20, eram de uma república em construção. O império, a escravidão e a estrutura social e política vivenciada no século XIX ainda eram uma herança presente em meio aos diferentes interesses conflitantes nos Estados Unidos do Brasil5. O Mato Grosso da década de 1920 possuía limites geográficos e políticos diferentes, que hoje compreenderiam os atuais estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e partes de Rondônia.


A Figura 1, logo abaixo, é um mapa da fitofisionomia de Mato Grosso, de Frederico Carlos Hoehnne de 1922, representando as vegetações da região, nomes de alguns assentamentos, cidades, linhas telegráficas, ferrovias etc. A diversidade e complexidade da região era uma característica que se destacava naquele período.


Figura 1: Mapa de Mato Grosso.


Mato Grosso, segundo dados do IBGE de 2022 (IBGE, 2024) tinha uma população estimada de 3.893.659 de pessoas e Mato Grosso do Sul havia 2.924.631 de habitantes, formando quase 7 milhões de pessoas nos dois territórios no censo de 2022. Mesmo hoje, a população de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul juntas não é maior do que a população da cidade de São Paulo, por exemplo.


Mato Grosso e Mato Grosso do Sul são pouco povoados atualmente. Essa realidade é ainda mais desafiadora ao pensar como estava a ocupação de Mato Grosso na Primeira República. Ocupação pode significar aqui também invasão, disputas por território e uma série de conflitos que envolvem povos indígenas nativos, o governo brasileiro, outros países com guerras declaradas, entre outras situações.


Desde o início da Proclamação da República em 1889 o território de Mato Grosso passou por diferentes disputadas por território. A área era palco de conflitos internos por divisões do imenso território e das diferenças entre norte e sul (além do Araguaia). Entre incentivos do governo para ocupação, grilagens, e outros conflitos por território, o cenário geográfico do estado passou por diferentes mudanças por influências de sujeitos internos e externos.


Mato Grosso tinha uma população de 246.612 pessoas na década de 1920 (Recenseamento, 1926, p.IV), uma quantidade totalmente diferente dos quase 7 milhões de pessoas residentes em Mato Grosso (e Mato Grosso do Sul) quase um século depois, praticamente no mesmo território. Em 1872 a população era de 60.417, chegando a 92.827 em 1890, 118.023 em 1900, saltando para os 246.612 habitantes em 1920 (Ibidem, p.IX). Nas duas primeiras décadas do século XX houve um salto muito significativo em Mato Grosso, com a população mais do que dobrando neste período. A movimentação social, política e cultural, inclusive religiosa, reconfigurou a dinâmica do estado. O Mato Grosso tinha 21 municípios na época e 36 distritos (hoje possui 221 municípios nos dois estados), sendo que somente o Território do Acre e o Distrito Federal da época tinha uma quantidade menor (Ibidem, p. XIX).


Em 1920, a população de Mato Grosso só era menor que a população do Território do Acre, que ainda estava em organização ou estruturação. Nesses números não consideramos outras diferenças, como a de áreas separadas dentro do atual estado de Rondônia que também faziam parte do território de Mato Grosso na década de 1920. Enquanto a população era pequena, o território era enorme, “em extensão territorial o segundo da vasta republica brasileira”, como retratou na época o próprio pastor Max Rohde (Rohde, 1921, p. 9).


A comparação entre a população do território de Mato Grosso na década de 1920 e o mesmo território cerca de 100 anos depois é uma oportunidade, ao mesmo tempo, de distanciamento entre o Mato Grosso “ontem e hoje”, e de aproximação de um espaço de experiência que estamos construindo para representarmos a realidade desafiadora para a obra adventista vivenciada por Max Rohde, que confessou: “Irmãos, a obra aqui em Matto Grosso é uma obra dificultosa” (Rohde, 1921, p. 10).


Além da quantidade de pessoas, os meios de transporte na época nos demonstram também os problemas enfrentados por colportores, membros, obreiros e pastores adventistas no território de Mato Grosso durante a Primeira República. Se a população de Mato Grosso era uma das menores entre os estados da recente república brasileira, na questão do território já era o oposto, o Mato Grosso era um dos maiores. O pastor Max Rohde apresentou para a comunidade adventista através da Revista Mensal que entre os “Campos nacionaes” que existiam no Brasil, o “Matto Grosso” se destacava pelo tamanho, dizendo:


Pela graça de Deus e determinação da Commissão Administrativa achamo-nos agora neste Estado, ' em extensão territorial o segundo da vasta republica brasileira, afim de annunciar aos seus habitantes a ultima mensagem da graça. (Rohde, 1921, p.9)


O pastor Rohde relata e destaca para os leitores da Revista Mensal que o Mato Grosso é o “segundo” maior em “extensão territorial” no Brasil. Provavelmente era uma forma de ressaltar pedidos de consideração para que a administração e membros do movimento considerassem a necessidade de maiores recursos para a região. Considerando que o pastor Max Rohde foi quem iniciou oficialmente o trabalho em Mato Grosso, quando a “Commissão Administrativa”, que era um órgão administrativo da Igreja Adventista do Sétimo dia (IASD), e que havia determinado o próximo destino do pastor Rohde na década de 1920.


O pastor Max foi comissionado para trabalhar no estado de Mato Grosso, mesmo já aposentado. Não é incomum, ainda hoje, que obreiros (que trabalharam diretamente na obra dentro da igreja adventista) continuem com os trabalhos ou busquem novas formas de trabalhar mesmo depois de aposentados dentro da IASD. Mas, a fala de Max Rohde na Revista Mensal da época era direcionada também como instrumento pelo qual poderia chamar a atenção dos administradores da Igreja no Brasil para conseguir recursos e maior estrutura para a missão no estado.


Se observamos aspectos básicos do território e da população de Mato Grosso da década de 1920, já percebemos diferenças claras do estado de Mato Grosso atual, outras questões entorno da cultura na época e de outros aspectos da vida cotidiana poderão nos ajudar a compreender melhor o contexto e as experiências que Max Rohde e os primeiros adventistas de Mato Grosso vivenciaram. Os veículos mais lentos (a cavalo, geralmente) e estradas (as vezes picadas6), podemos considerar as várias dificuldades sendo multiplicadas.


A situação na época era extremamente diferente e difícil para qualquer empreitada, seja no adventismo, ou para outros movimentos religiosos. Nestas terras de grandes dimensões, a missão do pastor Max Rohde e dos poucos colportores na época certamente foi desafiadora. Mas, a intenção era clara, “annunciar aos seus habitantes a ultima mensagem da graça.” (Rohde, 1921, p.9).


Fazendo esse primeiro exercício ao pensarmos o Mato Grosso “ontem e hoje”, partimos agora mais diretamente para o breve relato de Max Rohde e através de suas palavras exploraremos mais características não somente da geografia, mas da fauna e flora mato-grossense na década e 1920 e do avanço do adventismo no Brasil.


O adventismo em Mato Grosso na década de 1920


A década de 1920 é importante para o início dos trabalhos do adventismo em Mato Grosso, assim como o estabelecimento de uma estrutura administrativa da igreja adventista na região. Max Rohde, como pastor adventista, aposentado e experiente, foi designado para ministrar em Mato Grosso e organizar oficialmente as atividades que havia começado principalmente com colportores7.


A origem da obra adventista no estado do Mato Grosso data do início da década de 1920, quando os colportores Antônio Souza e Egídio Machado foram enviados para trabalhar na região sul do estado. Paralelamente, o Pastor Max Rohde visitou a cidade de Entre Rios, onde organizou a primeira Escola Sabatina da região, com aproximadamente 10 membros. Mais tarde, o Pastor Rohde encontrou na região um grupo de observadores do sábado “no meio de uma enorme floresta virgem”, onde organizou outra classe da Escola Sabatina com 20 membros. A primeira cerimônia de batismo registrada no território ocorreu em 1921, na cidade de Ponta Porã. No mesmo ano (1921), a Missão Mato-Grossense (atual Associação Sul Mato-Grossense) foi estabelecida, com Max Rohde como presidente e o único ministro licenciado. A sede da missão estava localizada no município de Campo Grande e cobria o território que hoje corresponde aos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, que, naquela época, formavam um único estado. (Castilho; Nascimento; Ferreira, 2021)


Castilho, Nascimento e Ferreira fazem uma breve menção ao pastor Max Rohde ao tratarem da atual história da Associação Leste Mato-Grossense (ALM) da igreja adventista em Mato Grosso. A história de Max Rohde repercuti em três associações atualmente que organizam a igreja nos dois estados, mas que não existiam em 1920. A ALM é uma organização territorial dentro do adventismo, entre as chamadas Associações. Em Mato Grosso temos atualmente duas Associações, dividindo administrativamente a igreja no estado em Associação Leste Mato-Grossense (ALM) e a Associação Oeste Mato-Grossense, além disso temos a Associação Sul Mato-Grossense no Mato Grosso do Sul.


Antes da atual estrutura mais complexa de associações, Max Rohde inicia o trabalho em Mato Grosso no começo do século XX organizando os primeiros conversos adventistas. Se instalando em Campo Grande, passou a atuar na região. É possível observar o pioneirismo das atividades nestes anos, isto é, a organização de escolas sabatinas e os primeiros batismos em 1920 e 1921. O pastor “visitou a cidade de Entre Rios, onde organizou a primeira Escola Sabatina8 da região, com aproximadamente 10 membros”, sobre isso, o próprio pastor relatou na Revista Mensal que:


No mez de Novembro do anno passado tiveí o privilegio de em companhia do irmão Antônio Souza, fazer uma viagem para o interior do Estado, a uma localidade chamada Entre Rios. Partindo de Campo Grande atravessámos a cavallo a grande campanha, viagem que levou 6 dias. Como nos achassemos em meio da estação chuvosa tivemos todos os dias fortes trovoadas, o 'que teve por resultado que os rios se encheram muito, e nós, por diversas vezes, nos vimos obrigados a atravessal-os com perigo de afogar-nos. Em certos logares as inundadas margens são muito pantanosas e esconderijos predilectos da succuri, e por diversas vezes necessitávamos de um guia para seguramente passar estes logares. A terra é ligeiramente ondulada e coberta de muitos pequenos capões, os quaes não só offerecem alternadamente um aspecto agradavel á vista, mas as suas águas frescas e refrigerantes também convidam ao descanço restaurador o fatigado peregrino. Por diversas vezes, antes de chegar a uma fazenda, viajámos o dia inteiro á soleira e tempestade, o que contribue muito para difficultar as viagens pela immensa campanha.

Entretanto os nossos fieis colportores já tinham trabalhado nestas regiões e assim chegámos cada noite a uma casa onde o irmão Antônio já tinha estado anteriormente, e todos nos acolheram com muita benignidade." (Rohde, 1921, p.9)


Na década de 1920 os colportores e Rohde andavam a cavalo e neste caso levaram 6 dias para chegar ao destino. Podemos considerar o quanto as estradas eram diferentes na época, isso quando existiam, em comparação com aquelas encontradas atualmente. Além disso, havia uma vegetação virgem na maior parte do estado, com “picadas” e trechos que certamente dificultavam o trajeto, principalmente nas longas temporadas de chuvas.


Os períodos de chuvas intensos em Mato Grosso eram agravantes. Rohde relatou que durante todos os dias enfrentaram chuvas, que por sua vez provocaram cheias nos rios, dificultando a viagem. Atualmente, em Mato Grosso, regiões de mata intensa, estradas de terra com pouca assistência e chuvas intensas causam percursos quase intransitáveis, considerando veículos automotores, mesmo com tração nas quatro rodas, mas certamente a situação era ainda menos favorável na década de 1920, com viagens a cavalo, durante vários dias ou semanas, para trajetos de 200, 300 ou até 400 quilômetros, com chuva, animais selvagens e perigos nas estradas.


Os rios geralmente poderiam se tornar em grandes obstáculos, principalmente na época de chuvas, ainda mais considerando que não existiam estruturas de pontes que favorecessem o acesso aos vários povoados e fazendas. Acrescente-se a isto as regiões do pantanal mato-grossense. As características da fauna e flora de Mato Grosso foram claramente ressaltadas pelo pastor Max como um grande desafio a ser conhecido pela administração e corpo da igreja.


O pastor Rohde disse: “Em certos logares as inundadas margens são muito pantanosas e esconderijos predilectos da sucuri”. Nesse contexto, estradas alagadas, provavelmente tendo roupas e materiais molhadas pela intensa chuva, dias e noites no meio de matas fechadas com animais selvagens, não seriam situações incomuns para os colportores e obreiros em Mato Grosso. Encontrar cobras como sucuris de 2 ou 4 metros de comprimento que realmente traziam perigos constantes para os viajantes não seria uma coisa difícil.


Os colportores, obreiros e pastores, todos adventistas pioneiros em Mato Grosso, enfrentavam as dificuldades dessa fauna e flora para que 10 membros convertidos pudessem estarem instituídos e organizados em Entre Rios em 1920 e para que a obra pudesse avançar naquelas “campanhas”.


Neste contexto, enquanto é destacado o primeiro batismo oficial em Mato Grosso acontecendo em 1921, podemos observar outra organização de um grupo de 20 pessoas no “meio da mata virgem”, onde o pastor anunciou mais uma Escola Sabatina. A partir das características naturais da região podemos compreender as circunstâncias desafiadoras vivenciadas pelos missionários. Asfalto, transporte motorizado, nada destas coisas faziam parte de Mato Grosso naquela época, faltava infraestrutura e condições para o avanço da obra adventista, e o próprio relato de Max Rohde na Revista Mensal se torna um instrumento para buscar recursos para a missão nestas terras, principalmente recursos financeiros e humanos.


De casa em casa, fazenda em fazenda, família em família, oficializar os conversos e organizar as atividades eram as ações necessárias para que igrejas adventistas fossem levantadas na região e o movimento adventista avançasse:


Visitámos uma familia cujos parentes em Salto Grande, São Paulo, lhe escreveram da chegada de um missionário á casa delles, o qual lhes pregava o Sabbado e que elles mesmos também já estavam guardando este dia. Tive o privilegio de realisar aqui reuniões muito abençoadas.

Em Entre Rios organisei uma escola sabbatina de 10 membros, os quaes todos se alegram por saber que doravante serão visitados de tempos em tempos. (Rohde, 1921, p.9)


Conforme o relato do pastor Max Rohde, havia a expectativa da chegada de um pastor ou pregadores nestes locais com guardadores do sábado que receberam a mensagem adventista anos antes de sua chegada através dos colportores. O relato ressalta as dificuldades da fauna para os viajantes em Mato Grosso, inclusive da onça, “que impera livremente” no “imenso mato virgem”, dizia o pastor Rohde.


“Era costume entre eles ir à igreja com revólver no cinturão, para enfrentar as onças, comuns naquelas matas e pradarias” (Lima, 2015, p. 35). Onças e cobras atacarem animais não era incomum, e era até esperado. O perigo também se estendia para as pessoas que se aventuravam, viajavam, trabalhavam ou exploravam a região. Viagens e pernoitadas no meio da “mata virgem” traziam seus perigos:


Quasi uma jornada mais adeante, em meio de um immenso mato virgem, onde a onça impera livremente, visitámos um outro grupo de observadores do Sabbado, que havia dois anos estava aguardando a chegada de um pregador. Elles chegaram ao conhecimento da verdade por um irmão da Argentina que se mudara para aquelle logar. Grande era a sua alegria quando nós ali chegamos e elles assim finalmente viam cumprido o seu desejo. As abençoadas reuniões firmaram em todos o desejo de contribuir, conforme puderam, para a proclamação da mensagem em Matto Grosso. Um joven está fazendo sinceramente os necessários preparativos para logo entrar na colportagem, e seu pae com grande alegria quer munil-o das cousas necessárias para este fim. Queira o Senhor também a estas almas dar um cada vez mais nítido conhecimento da grandeza da Sua maravilhosa obra. Também aqui pude incontinente organizar uma escola sabbatina, que se compõe de vinte membros, e como signal da sua fidelidade receber as offertas da escola sabbatinja e o dizimo. (Rohde, 1921, p.9-10)


Acima podemos perceber que um jovem que morava em Mato Grosso se prepara para trabalhar como colportor e se envolver no trabalho missionário do movimento adventista. Recursos financeiros surgiam dos próprios conversos e membros que iam sendo incorporados ao movimento. Abaixo, percebemos que outros convertidos também já trabalhavam como colportores em outros locais do estado. Trabalhos muitas vezes feito silenciosamente, sem o conhecimento e divulgação, mas que preparavam o campo para a atuação dos pastores. Neste caso, o campo seria Ponta Porã, extremo sul de Mato Grosso, com forte influência de adventistas estrangeiros vindos da fronteira com o Paraguai. Rohde diz que:


Além destes temos ainda outros irmãos e almas interessadas que ja guardam o Sabbado em Ponta Porã e circumbizinhaças. Este logar está á distancia de 70 léguas de Campo Grande. Espero de visitar em breve estes irmãos. Neste logar um irmão já baptizado, de nome Ramão Antunes, entrou na colportagem e ouvimos que está trabalhando com bom successo na obra do Senhor. (Rohde, 1921, p.10)


Campo Grande se tornou a base de operações do pastor Max Rohde. A distância de 70 léguas de Campo Grande até Ponta Porã, hoje, representa quase 300 km, mas na época as estradas e condições eram outras, como pudemos ressaltar anteriormente. Podemos comparar essa distância com o trajeto percorrido pelos que saiam de Santa Catarina, e atravessavam a atual região do Paraná, São Paulo e chegavam ao Rio de Janeiro, essa era quase a mesma distância entre Ponta Porã e Campo Grande, mas com maiores dificuldades, vegetação nativa e poucas habitantes e comunidades durante o percurso. Ainda assim, Mato Grosso era muito mais extenso, e sua região norte nem mesmo está sendo cogitada neste momento.


Diante de onças e sucuris, a obra em Mato Grosso era um imenso desafio, com problemas que a maioria dos administradores e irmãos que eram da região sul e sudeste do país sequer poderiam compreender, era preciso evidenciar e ressaltar:


Irmãos, a obra aqui em Matto Grosso é uma obra difficultosa, e somente aquelle que o conhece por experiência própria sabe avaliar as difficuldades que os obreiros, e particularmente os colportores, aqui encontram. Mas com alegria queremos fazer tudo afim de que a mensagem da vinda do Senhor em breve possa resoar em todos os recantos deste vasto Estado. (Rohde, 1921, p.10)


Alegria, mesmo em meio as dificuldades, era o sentimento expresso por Max Rohde. Talvez no mesmo sentido bíblico de Filipenses 4:4 que diz “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos”. Os pioneiros em Mato Grosso tinham o mesmo Espírito do apóstolo Paulo, que em meio de toda sorte de desafios e problemas, não deixava de se alegrar por cooperar pelo avanço da obra.


O experiente pastor Max Rohde, que já havia atuado na Bahia e tantos outros estados do território brasileiro (Santos; Silva, 2015, p.70), agora utiliza sua influência para articular recursos e a atenção para a obra em Mato Grosso. Toda essa articulação é feita considerando a alegria de “fazer tudo afim de que a mensagem da vinda do Senhor em breve possa ressoar em todos os recantos” de Mato Grosso. A mensagem do advento para todo mundo era o que movia a obra de quem, mesmo aposentado, continuou o trabalho pela causa do adventismo. Lembrando mais uma vez das dificuldades que enfrentava, não deixava de demonstrar o entusiasmo com Mato Grosso e seu clima, com os habitantes hospitaleiros e o avanço da obra, dizendo que:


A maior parte das viagens importa fazer a cavalo, sob perigos e fadigas. O clima porém na parte sul do Estado é bom, os habitantes são muito hospitaleiros e almejam a luz que/ o Senhor deu ao mundo nestes últimos dias.

Portanto, orae por nós e pela obra em Matto Grosso, e vós jovens, futuros obreiros na obra do Senhor, consagrae-vos ao Senhor de todo o vosso coração, afim de que ainda muito jovens valorosos e consagrados venham a este campo para ajudar-nos a desfraldar o ensangüentado estandarte do Príncipe da vida e da paz. Vosso co-obreiro na obra do Senhor. (Rohde, 1921, p.10)


Diante dos esforços do pastor Max Rohde o auxílio chegou ao estado, primeiro com a criação da Missão Mato Grosso em 1921, e depois com mais estruturas em Campo Grande, materiais e pessoas para a obra no estado. Esse processo, no entanto, foi gradativo e ocorreu ao longo dos próximos anos. “Embora a Missão Mato Grosso tenha sido criada legalmente pela União Sul Brasileira em 1921, ela somente passa a ter estrutura administrativa no estado em 1935” (Lima, 2015, p.73). A obra em Mato Grosso estava somente no início. Cuiabá e outras regiões foram sendo lugares onde a obra foi avançando, ao norte do estado, gradativamente. No entanto, esses desdobramentos serão pensados em outros momentos.


Conclusão


Neste trabalho destaquei uma das experiências do pastor Max Rohde relatadas na Revista Mensal em fevereiro de 1921. A partir das características observadas no relato do pastor, busquei compreender o contexto em que o adventismo começou e se desenvolveu em Mato Grosso na década de 1920, durante a Primeira República dos Estados Unidos do Brasil.


A pequena quantidade de pessoas em Mato Grosso, as poucas estradas e cidades demonstraram brevemente as difíceis condições para o avanço da obra adventista no estado. A fauna e a flora mato-grossense eram (e ainda são) diversas, complexas, ricas em vários sentidos, mas com desafios e problemas que a obra do movimento adventista ainda enfrenta, mesmo mais de 100 anos depois da pregação do evangelho já haver se iniciado em Mato Grosso. Em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e na região norte do país podemos encontrar histórias que podem formar uma identidade do movimento adventista atualmente, criando pertencimento, confiança na ação divina e nos fundamentos da obra no Brasil.


Deus conduziu o movimento e o crescimento da igreja na região, assim acreditava o pastor Max Rohde, e assim devem os adventistas, membros e obreiros do corpo de Cristo atuar no presente, no mesmo Espírito e alegria, lutando pela causa, pela obra, enfrentando chuvas, rios, onças e sucuris se preciso, “dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Bíblia, 2018, Efésios 5, 20).

NOTAS:


  1. Mestre em Ensino de História pela UFMT. E-mail: carlosunix@hotmail.com.

  2. Colportores são vendedores de literatura adventista com temáticas religiosas, de saúde, educação e relacionamento. São parte ativa de uma organização da igreja adventista do sétimo dia entorno de um forte trabalho de publicações. São considerados missionários dentro do adventismo, distribuindo livros, revistas, folhetos, manuais, e diferentes outros materiais que muitas vezes são comercializados exclusivamente através do trabalho dos colportores.

  3. Revista Adventista. Acervo. Disponível em: https://acervo.cpb.com.br/ra. Acesso em: 05 de dezembro de 2025.

  4. A “obra” é uma expressão que aponta para a ação de Deus na história humana conduzindo o processo histórico até o cumprimento das promessas, profecias e da vontade soberana do próprio Deus. Muito utilizado no meio adventista e fortemente presente em sua literatura. Max Rohde finaliza seu relato pedindo oração pela obra, dizendo “Portanto, orae por nós e pela obra em Matto Grosso” (Rohde, 1921, p. 10).

  5. Estados Unidos do Brasil era o nome oficial da república desde o início do período republicano até 1967.

  6. A “picada” é um caminho aberto e estreito no meio da mata fechada, geralmente na base da foice ou facão.

  7. Colportores são, simplificando, missionários vendedores de literatura adventista.

  8. São reuniões aos sábados onde os adventistas recapitulam as lições estudadas durante a semana, no formato de uma escola, com classes distribuídas geralmente dentro das igrejas ou em salas separadas, com professores que coordenam as atividades de recapitulação, além de outras atividades de incentivo ao trabalho missionário. É um momento onde todos os membros comentam o que estudaram e compartilham suas dúvidas livremente.


Referências bibliográficas


BÍBLIA MISSIONÁRIA. Tradução Almeida Revista e Atualizada. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2018. 1344p.


IBGE. Diretoria de Pesquisas, Coordenação de População e Indicadores Sociais, Estimativas da população residente com data de referência 10 de julho de 2024. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/mt.html. Acesso em: 13 de nov. de 2025.


LIMA, Sônia Filiú Albuquerque Lima. 100 anos em memórias: adventistas do sétimo dia em Mato Grosso do Sul. 1. ed. - Campo Grande, MS: Editora Alvorada, 2015.


SANTOS; Nesias Joaquim dos; SILVA, Natan Fernandes. Contando nossa história: 110 anos da Igreja Adventista do Sétimo Dia no Estado da Bahia. Salvador, BA: EGBA, 2015.


CASTILHO, Julia; NASCIMENTO; Dayane; FERREIRA, Otoniel. Associação Leste Mato-Grossense. Junho, 2021. Disponível em: https://encyclopedia.adventist.org/article?id=BGE0&lang=pt. Acesso em 03 de novembro de 2025.


ROHDE, Max. Campos nacionaes. Revista Mensal, São Bernardo, v. 16, n. 2, p. 9-10, fev., 1921. Disponível em: https://acervo.cpb.com.br/ra/artigo/11464. Acesso em: 13 de nov. de 2025.


RECENSEAMENTO DE 1920. V. 4. Diretoria Geral de Estatística. Rio de Janeiro, TYP. da Estatistica, 1926. Disponível em: http://memoria.org.br/pub/meb000000360/recenseamento1920pop1/recenseamento1920pop1.pdf. Acesso em 11 de jan. de 2026.


WHITE, Ellen Gold. Eventos Finais: como enfrentar a última e maior crise da terra. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014.

 
 
 

1 comentário


Que bom ler esse artigo histórico. Pastor Max Rhode, no fim da primeira decada do século XX trabaçjou por poucos meses aqui na Bahia. Transferido daqui para o Estado do Pará de onde seguiu para o Mato Grosso. Quem entra para a igreja hoje não tem ideia do que foi chegar aos lugares mais distantes do litoral com a mensagem de esperança. Tenho uma convicção projunda que o crente adventista que conhece a história de sua igreja não a trocará por nada neste mundo! Nesias Joaquim Salvador bahia Coautor do Livro Contando nossa história 110 anos da Igreja Adventista do Sétimo Dia no estado da Bahia.


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