Entre a Guerra e o Cosmos: A Polissemia do Sinal do Arco em Gênesis 9:11-13
- 28 de mai.
- 4 min de leitura
Bruno José da Silva¹

Introdução
O relato do pós-dilúvio na narrativa primordial de Gênesis culmina na instituição de uma aliança universal entre Deus e todos os seres viventes da Terra. O sinal visível dessa promessa surge de uma estrutura nas nuvens, denominada pelo termo hebraico qešet (Gn 9:11-13). A exegese majoritária tradicionalmente interpretou esse sinal sob uma perspectiva meteorológica — o arco-íris. Assim, associou-o à ideia de que Deus “aposenta” sua arma de guerra após o cataclismo. No entanto, focar apenas numa leitura naturalista do símbolo reduz a complexidade literária e teológica do texto bíblico.
A questão interpretativa surge porque o vocábulo qešet designa, em seu uso mais comum, um arco de guerra utilizado para disparar flechas. Como, então, a imagem de uma arma projetada nos céus comunica paz e estabilidade? A resposta não é simples. Estudos recentes ampliaram o horizonte analítico da passagem ao integrar história cultural do Antigo Oriente Próximo, linguística cognitiva, iconografia militar e cosmologia bíblica.
Este estudo utiliza metodologia bibliográfica e abordagem qualitativa, articulando análise exegética, literatura comparada do Antigo Oriente Próximo e estudos de semântica hebraica. Meu objetivo é demonstrar que o sinal do arco em Gênesis 9 apresenta caráter polissêmico. Ele articula, ao mesmo tempo, ideias de autolimitação divina, reorganização da ordem cósmica e estabilidade da criação após o dilúvio.
O Debate Teológico e a Semiótica do Sinal Cósmico
Compreender o cenário interpretativo do texto exige olhar para o ambiente mítico-cultural do Antigo Oriente Próximo. Conforme demonstra Batto (1987), o conceito de uma “aliança de paz” (covenant of peace) constitui um motivo recorrente na literatura do período. Nesse padrão cultural, a divindade manifesta sua ira destrutiva contra a humanidade em razão da quebra da ordem cósmica ou da rebeldia humana. Logo em seguida, decide cessar as hostilidades e estabelecer uma nova relação de estabilidade.
Um sinal visível e permanente costumava confirmar esse compromisso, servindo tanto aos deuses quanto aos homens. Em Gênesis, o arco nas nuvens funciona precisamente como esse memorial duradouro de que o decreto de destruição universal foi revogado.
A interpretação do qešet como arco de guerra divino é amplamente aceita. Mesmo assim, restava saber como um instrumento militar representaria visualmente uma mensagem de paz. Assis (2022) responde a esse problema a partir da iconografia militar do Antigo Oriente Próximo. Ao analisar monumentos e estelas reais da Mesopotâmia e do Egito, o autor observa um detalhe curioso. Arqueiros e divindades vitoriosas frequentemente giravam suas armas em direção ao próprio corpo para simbolizar a cessação das hostilidades e uma intenção pacífica.
Conforme afirma Assis (2022, p. 35): “Um arqueiro viraria seu arco para si mesmo para indicar que, embora ainda seja capaz de infligir dano, ele se conteve de fazê-lo.”
Esta convenção militar lança luz sobre a narrativa de Gênesis. O arco nas nuvens representa uma arma cuja direção foi invertida. A imagem comunica que o juízo divino foi suspenso. O próprio Deus assume voluntariamente o compromisso de não destruir novamente a Terra por meio das águas do dilúvio.
Ellen van Wolde (2013) amplia essa leitura ao abordar o símbolo sob a perspectiva da linguística cognitiva. A autora argumenta que a associação imediata de qešet ao arco-íris multicolorido resulta de tradições interpretativas posteriores. Essas leituras tardias enfraqueceram o sentido original do termo hebraico. Para Wolde, o arco preserva sua identidade de armamento real, mas seu posicionamento indica uma mudança profunda na relação entre Deus e a criação.
O ato de colocar o arco nas nuvens expressa uma redefinição da governança divina, distanciando-se de uma simples renúncia ao poder destrutivo. Deus continua soberano. Apesar disso, ele estabelece uma nova ordem marcada pela preservação da vida e pela responsabilidade compartilhada dos seres humanos na manutenção da criação.
Laurence Turner (1993) propõe um caminho diferente, focado numa leitura cosmológica do sinal. Segundo o autor, limitar o qešet à imagem de um arco de guerra faz o leitor perder a conexão estrutural entre a narrativa do dilúvio e o relato da criação em Gênesis 1.
Nessa perspectiva, o arco suspenso nas nuvens reproduz simbolicamente a forma do firmamento (rāqîaʿ), estabelecido para separar as águas superiores das águas inferiores. O dilúvio representa justamente o colapso temporário dessa estrutura cósmica. Assim, ao colocar o arco nas nuvens, Deus oferece um sinal visual de que a ordem da criação foi restaurada e permanece estabilizada.
Para sintetizar as principais abordagens discutidas, a tabela abaixo resume os diferentes eixos interpretativos associados ao sinal do qešet:
Tabela 1 – Principais interpretações do qešet em Gênesis 9.

Considerações finais
A análise das diferentes perspectivas demonstra que o sinal do arco em Gênesis 9:11-13 ultrapassa uma explicação puramente naturalista ou um único significado simbólico. O texto cruza tradições militares, cosmológicas e teológicas do Antigo Oriente Próximo para construir um símbolo de grande densidade interpretativa.
As leituras de Batto (1987) e Assis (2022) evidenciam que o arco funciona como linguagem de pacificação e autolimitação divina. Paralelamente, Wolde (2013) amplia essa compreensão ao associar o símbolo à reorganização das relações entre Deus e a criação. Turner (1993) destaca a dimensão cosmológica do sinal ao relacioná-lo à estabilidade do firmamento e à preservação da ordem criada.
Estas interpretações revelam diferentes dimensões de um mesmo símbolo, afastando qualquer exclusão mútua. O qešet atua simultaneamente como sinal de cessação do juízo, garantia de estabilidade cósmica e memorial permanente da aliança estabelecida após o dilúvio. Desse modo, o arco nas nuvens representa a transição do caos para a ordem e da destruição para a preservação da vida.
NOTAS:
Especialização em Ciências Humanas e Sociais (Universidade Federal do Piauí). Professor da Rede Adventista de Ensino. Lattes: http://lattes.cnpq.br/1267568116687541
Referências
ASSIS, Luiz Gustavo. How to Interpret the Sign of the Qešet in Genesis 9? Vandenhoeck & Ruprecht, Göttingen, n. 52, p. 35-52, 2022.
BATTO, Bernard F. The Covenant of Peace: A Neglected Ancient Near Eastern Motif. Catholic Biblical Quarterly, Washington, DC, v. 49, n. 2, p. 187-211, abr. 1987.
TURNER, Laurence A. The Rainbow as the Sign of the Covenant in Genesis IX 11-13. Vetus Testamentum, Leiden, v. 43, fasc. 1, p. 119-124, jan. 1993.
WOLDE, Ellen van. One Bow or Another? A Study of the Bow in Genesis 9:8-17. Vetus Testamentum, Leiden, v. 63, n. 1, p. 124-149, jan. 2013.





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